Todo mundo já viveu um amor sazonal: aquele de temporada, fulminante, que deixa a perna trêmula e o corpo suando frio. É intenso, mas ele termina tão (ou mais) rápido quanto começou, mesmo que se deseje o contrário. Amor sazonal é tragédia anunciada: tem data de início, mas também prazo de validade.
Amor sazonal é amor cruel, que machuca sempre. Ele cativa, galanteia e sacia por algum tempo, mas apenas o suficiente para dar lugar a uma dependência visceral. Dependência não saciada vira crise. O amor, outrora tão desejado, torna-se tortura. Disfarçada de abstinência, ela lhe consome por meio de um doloroso sentimento de vazio. Amor sazonal é amor torturador, afinal.
Amor sazonal é apenas um gatilho a disparar desejos incompletos. Sem as armas certas, o amor diário e a cumplicidade dos olhares sinceros são alvos inatingíveis. Amor sazonal é paixão sem qualquer concretude, fadada ao comodismo. É amor líquido, que escapa por entre nossos dedos. É platonismo frágil e fajuto.
Trocar os passos seguros de um amor recompensador por um andar cambaleante é mais que impulsividade: é desvario; desperdiçar a chance de espantar a superficialidade e mergulhar na certeza de uma cumplicidade diária, insanidade.
Amor sazonal é apenas uma humilde exclamação em uma sentença sem sujeito aparente. No máximo uma oração saudosista que, apesar de parecer perfeita, não deixa de estar no pretérito. Ignorar a existência de infinitos períodos, no presente e no futuro, é um contrassenso.
Ousemos arriscar além de nossas vontades mais fortuitas! Covardia não é deixar de viver nossos desejos mais imediatos, e sim não ousar estendê-los. Amor sazonal é apenas uma parte (insuficiente) daqueles que não se contentam com a covardia de um travesseiro vazio. Que os amores genuínos permaneçam, no fim das contas.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Existência, visibilidade e crachá
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| Não, o Guedes não começou a andar por aí disfarçado de Groucho Marx. |
O Guedes era o típico “introspectivo-sociável” do escritório: trabalhador, mas que não perdia uma boa piada. Não era um frequentador assíduo dos happy hours, mas marcava presença em alguns churrascos após o expediente. Homem bacana, que tinha uma boa relação com todos. Era lembrado com carinho no aniversário e em pequenas conquistas pessoais – como a data em que finalmente conseguiu completar a pós-graduação. Ganhou até festa.
Após três anos (sem férias) convivendo diariamente com as mesmas pessoas, Guedes decidiu abandonar o emprego. A partir daí, começou a perceber que sua existência era condicionada a um crachá com um número de inscrição pendurado no pescoço. A primeira suspeita aconteceu três meses depois de ter pedido demissão, ao avistar um antigo conhecido do trabalho no centro da cidade.
- Ô Pereira! Pereira! – chamou o Guedes, enquanto abanava os braços para o homem de terno a alguns passos dele.
O engravatado olhou e, diante de tanta insistência, caminhou até o antigo companheiro de trabalho.
- Oi. Tudo bem?
- E aí, rapaz! Quanto tempo, hein? Saudades de você. E como está o pessoal?
- O pessoal? Hmm, o pessoal está bem – respondeu o Pereira, meio sem saber quem era aquele homem (e a qual pessoal ele se referia).
- A galera do escritório, Pereira. Como eles estão? E a Flavinha? O Borges continua usando aquelas camisas ridículas? – riu o Guedes.
- Ahhh. Continua, continua – confirma o Pereira, ainda sem saber, ao certo, quem era aquele homem, e como ele conhecia tanto sobre sua vida profissional.
- Então tá. Vê se aparece. Manda um abraço para todo mundo – encerra o Guedes, percebendo que o Pereira não se lembrava dele (ou, ao menos, fingia não se lembrar).
- Pode deixar...
“Só pode ser a barba. Eu não usava barba naquela época. Mas... Será que fico tão irreconhecível assim? Acho que não. Sou apenas eu. De barba.”- pensa o Guedes.
Em outra situação, seis meses depois de pedir demissão do antigo trabalho, encontrou com a Flavinha em uma fila do teatro.
- Flavinha! Que saudade! Quanto tempo, hein? – se entusiasma o Guedes.
- Oooi..!? – responde a Flavinha, reticente.
E a história se repetiu. A Flavinha também não se lembrava do Guedes.
“Devem ter sido meus óculos... Eu quase não ia trabalhar de óculos naquela época. Isso, junto com a barba, deve ter me tornado irreconhecível.” – preferiu imaginar o Guedes.
Semana após semana, o Guedes encontrava com algum antigo companheiro de trabalho. Alguns trabalharam logo ao lado, trocaram comentários pessoais, conselhos, riram nas comemorações de fim de ano. Mas ainda assim não reconheciam o Guedes. Ao passarem por ele na rua, todos pareciam (ou fingiam) não vê-lo. Conveniência social ou distração genuína? (Afinal, o Guedes não tinha se tornado um grande figurão. Largou o emprego apenas porque queria mudar de ares, e continuava com a vidinha classe-média de sempre).
Seria possível que, em tão pouco tempo, tanto tenha mudado na fisionomia dele? O destino mostrou que não. A redenção do Guedes aconteceu quando ele se encontrou com a Julinha, um antigo amor da adolescência. Ele a avistou no supermercado.
- Julinha? – pergunta o Guedes, já meio sem graça.
- Não é possível...! Guedes, é você? Marquinhos Guedes? – se surpreende a mulher, abrindo um largo sorriso.
- Sim, eu mesmo! Quanto tempo... Mas... Como você me reconheceu, hein? – se espanta o Guedes, que já estava se sentindo invisível.
- Ahh, Guedes. Quem realmente deixa marcas na nossa vida nunca é esquecido, né? Aliás, você ficou muito bem de barba e com esses óculos intelectuais – ri a Julinha.
- Realmente... Impossível deixarmos marcas na vida de todo mundo... – autorreflete o Guedes.
O papo seguiu - dessa vez com um contato genuíno e espontâneo, sem burocracias ou falseamentos. Ele era novamente o Guedes, visível (e de barba).
sábado, 6 de setembro de 2014
Preguiça de desfazer as malas
Mauro era do tipo de homem que detestava a logística das viagens. A ideia de comprar as passagens com antecedência, reservar o hotel, montar itinerários, confirmar e rever as datas o aterrorizava. Mas, para ele, pior mesmo era o pânico envolvendo as malas (e sua burocracia sutil). Especificamente o desfazer das malas.
O arrumar da bagagem era um momento imaginativo, contemplativo, mesmo com o medo de se esquecer algum objeto essencial (que depois se mostraria dispensável). A burocracia de dobrar todas as roupas e ajustá-las ao tamanho (sempre insuficiente) das malas era o menor dos problemas, já que a expectativa de conhecer um novo lugar se sobrepunha à morosidade do processo. O suplício começava mesmo era na volta: o cansaço substituindo a euforia da ida, evoluindo para preguiça e se desenvolvendo, por fim, em procrastinação absoluta. Os resultados são conhecidos: malas (re)arrumadas às pressas, com tudo jogado lá dentro de qualquer jeito. Uma zona.
Foi em uma viagem de férias com a família que o maior dilema de Mauro começou.
- Gostei da viagem, mas tô cansado - diz o Mauro, ainda tirando os sapatos na sala de casa.
- Nem me fale. E olha que na metade do tempo você ficou na praia bebendo cerveja – retruca a esposa.
- E quem disse que tomar cerveja não cansa? Principalmente olhando o mar, toda aquela movimentação das ondas. É bonito, mas fica exaustivo depois de algumas horas – explica o Mauro.
- Deixa de ser preguiçoso! Isso porque você não deu sequer uma caminhada até o outro canto da praia. Eu fui até lá com a Julinha duas vezes. Uma beleza.
- Está louca? Já viu a dificuldade que é andar na areia? Meu guarda-sol é que estava uma beleza. A areia entre os dedos...
- Sei... Você não tem jeito, mesmo. Ó, fica aqui com a Julinha que vou tomar um banho. Já volto.
- Tá.
A esposa entrou no chuveiro e o Mauro afundou no sofá, com a Julinha dormindo, ao lado. Ligou a TV e se concentrou numa reportagem sobre os perigos das águas-vivas. “Ainda bem que nem entrei na água”, pensou. Ele ficou ali, remoendo outros argumentos para defender o sedentarismo das férias, enquanto a esposa tomava banho.
Volta a cônjuge.
- Nada como nosso próprio banheiro... Ahhhrr – celebra.
- Nem me fale. Minha vez de aproveitar... – responde o Mauro.
- Hmm, Mauro... As malas ainda estão ali no canto da sala. Leve-as para o quarto, pelo menos!
- Tô indo... Tô indo.
Depois de mais meia hora, foi. Com ele, arrastou as duas malas: uma dele e outra da mulher e da filha. Deixou tudo ao lado do guarda-roupa e seguiu para o banheiro, ainda quente do banho anterior.
***
Passados dois dias do retorno, a mala do Mauro continuava no mesmo lugar. Faltou ânimo para organizar tudo, e o máximo que fez foi tirar de lá algumas peças de roupas sujas, que estavam amontoadas em um cantinho.
- Ei, amor. Você pode pegar para mim aquela camisa listrada? Vou tomar um banho rápido – pede à esposa.
- Está em qual parte do guarda-roupa? Ainda não vi o que você fez por lá depois da viagem – questiona a cônjuge.
- Ainda está na mala, na verdade.
- Na mala? Você nem mexeu na sua mala? – se assusta a esposa, ativando seu senso de organização adormecido.
- Não. Tá tudo lá.
- Mauro... Não vou arrumar nada pra você, hein. Você não tem doze anos – ameaça.
- Eu sei, eu sei. Deu preguiça. Já viu o suplício que é encaixar tudo nos cabides? Ver se precisa passar novamente?
- Ai, Mauro...
Depois de uma semana, nada havia mudado. Foi aí que Mauro começou a questionar qual era a real necessidade de se possuir um guarda-roupa. E tantas roupas. Tudo o que precisava estava ali, na mala, ao alcance das mãos. E ainda havia várias divisórias para o desodorante, lâmina de barbear, umas duas calças e algumas camisas. A vida em uma mala.
Mais alguns dias se passaram, e a esposa flagrou o Mauro guardando as roupas lavadas e passadas na mala – e não no guarda-roupa.
- Vai viajar a trabalho, amor?
- Hmm... Não. Viajar?
- Então para que a mala?
Só aí ele percebeu o que estava fazendo. Mas não parou. Pensou por um minuto, e disse:
- Sabe aquele guarda-roupa maior que você queria? Não precisa se preocupar.
- Você decidiu comprar?
- Não, não. Você pode ficar com minhas duas portas. Se precisar, eu compro uma mala maior.
E arrastou tudo para debaixo da cama. Além de tudo, a mala tinha rodinhas. Vida compacta, prática e eficiente.
O arrumar da bagagem era um momento imaginativo, contemplativo, mesmo com o medo de se esquecer algum objeto essencial (que depois se mostraria dispensável). A burocracia de dobrar todas as roupas e ajustá-las ao tamanho (sempre insuficiente) das malas era o menor dos problemas, já que a expectativa de conhecer um novo lugar se sobrepunha à morosidade do processo. O suplício começava mesmo era na volta: o cansaço substituindo a euforia da ida, evoluindo para preguiça e se desenvolvendo, por fim, em procrastinação absoluta. Os resultados são conhecidos: malas (re)arrumadas às pressas, com tudo jogado lá dentro de qualquer jeito. Uma zona.
Foi em uma viagem de férias com a família que o maior dilema de Mauro começou.
- Gostei da viagem, mas tô cansado - diz o Mauro, ainda tirando os sapatos na sala de casa.
- Nem me fale. E olha que na metade do tempo você ficou na praia bebendo cerveja – retruca a esposa.
- E quem disse que tomar cerveja não cansa? Principalmente olhando o mar, toda aquela movimentação das ondas. É bonito, mas fica exaustivo depois de algumas horas – explica o Mauro.
- Deixa de ser preguiçoso! Isso porque você não deu sequer uma caminhada até o outro canto da praia. Eu fui até lá com a Julinha duas vezes. Uma beleza.
- Está louca? Já viu a dificuldade que é andar na areia? Meu guarda-sol é que estava uma beleza. A areia entre os dedos...
- Sei... Você não tem jeito, mesmo. Ó, fica aqui com a Julinha que vou tomar um banho. Já volto.
- Tá.
A esposa entrou no chuveiro e o Mauro afundou no sofá, com a Julinha dormindo, ao lado. Ligou a TV e se concentrou numa reportagem sobre os perigos das águas-vivas. “Ainda bem que nem entrei na água”, pensou. Ele ficou ali, remoendo outros argumentos para defender o sedentarismo das férias, enquanto a esposa tomava banho.
Volta a cônjuge.
- Nada como nosso próprio banheiro... Ahhhrr – celebra.
- Nem me fale. Minha vez de aproveitar... – responde o Mauro.
- Hmm, Mauro... As malas ainda estão ali no canto da sala. Leve-as para o quarto, pelo menos!
- Tô indo... Tô indo.
Depois de mais meia hora, foi. Com ele, arrastou as duas malas: uma dele e outra da mulher e da filha. Deixou tudo ao lado do guarda-roupa e seguiu para o banheiro, ainda quente do banho anterior.
***
Passados dois dias do retorno, a mala do Mauro continuava no mesmo lugar. Faltou ânimo para organizar tudo, e o máximo que fez foi tirar de lá algumas peças de roupas sujas, que estavam amontoadas em um cantinho.
- Ei, amor. Você pode pegar para mim aquela camisa listrada? Vou tomar um banho rápido – pede à esposa.
- Está em qual parte do guarda-roupa? Ainda não vi o que você fez por lá depois da viagem – questiona a cônjuge.
- Ainda está na mala, na verdade.
- Na mala? Você nem mexeu na sua mala? – se assusta a esposa, ativando seu senso de organização adormecido.
- Não. Tá tudo lá.
- Mauro... Não vou arrumar nada pra você, hein. Você não tem doze anos – ameaça.
- Eu sei, eu sei. Deu preguiça. Já viu o suplício que é encaixar tudo nos cabides? Ver se precisa passar novamente?
- Ai, Mauro...
Depois de uma semana, nada havia mudado. Foi aí que Mauro começou a questionar qual era a real necessidade de se possuir um guarda-roupa. E tantas roupas. Tudo o que precisava estava ali, na mala, ao alcance das mãos. E ainda havia várias divisórias para o desodorante, lâmina de barbear, umas duas calças e algumas camisas. A vida em uma mala.
Mais alguns dias se passaram, e a esposa flagrou o Mauro guardando as roupas lavadas e passadas na mala – e não no guarda-roupa.
- Vai viajar a trabalho, amor?
- Hmm... Não. Viajar?
- Então para que a mala?
Só aí ele percebeu o que estava fazendo. Mas não parou. Pensou por um minuto, e disse:
- Sabe aquele guarda-roupa maior que você queria? Não precisa se preocupar.
- Você decidiu comprar?
- Não, não. Você pode ficar com minhas duas portas. Se precisar, eu compro uma mala maior.
E arrastou tudo para debaixo da cama. Além de tudo, a mala tinha rodinhas. Vida compacta, prática e eficiente.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Café da manhã de hotel - parte 2
Clique aqui e leia a parte 1.
***
- Olha lá. Por isso está gordo desse jeito...
- É... Já é o terceiro sachê de açúcar, acredita? Cada um tem 20 calorias.
- Com tanta fruta ali na mesa... Pra quê o achocolatado?, se intrometerão.
Não importa o quanto o gordo já emagreceu, ou como foi o sofrimento dietético da semana: ele não tem direito a um café da manhã reforçado em uma eventualidade. Gordo está fadado a ter uma dieta de magro, independente da ocasião. Quando quer aproveitar, precisa se justificar.
- Mas tia... Está incluído na diária. Compenso as calorias comendo só salada no almoço.
- Olha lá, Marcelo. Depois não reclame do resultado na balança – ameaça a tia.
- Ah... O iogurte é light. Olha ali, ó – defende o sobrinho, apontando a placa na bandeja.
- E esses cinco pães de queijo?
- Ihhh. Trouxe pra todo mundo. Nem se eu fosse um dragão comeria tudo isso – se esquiva Marcelo.
- Não quero, obrigada. Já comi umas frutas com cereais – super saudável.
Enquanto isso o Marcelo virava um sachê suspeito no copo de suco.
- Marcelo! Suco de laranja já é doce! – explica a prima.
- É adoçante. Que mal tem?
- Não nos engane, Marcelo. GARÇOM! Isso aqui é adoçante? “Sacarina” é marca de açúcar, daquelas vagabundas? – questiona a tia.
- Tia...
Enquanto isso, a hóspede da mesa ao lado acompanha o debate, enquanto enrola metade de uma rosca doce no guardanapo. “Vou comer mais tarde. Afinal, está incluído”, pensa. Ah, e ela era magra, claro. Escapou dos julgamentos.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Café da manhã de hotel
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| Aproveitar esta mesa ou dormir até mais tarde? |
O lado odioso é precisar seguir o horário do hotel. Não se pode, simplesmente, querer tomar o café às três da tarde. Uma pena. Por isso, tomar café da manhã em hotel exige planejamento prévio. Um cronograma.
- Que horas vam’lá no café da manhã? – pergunta a mulher.
- Amanhã a gente vê – você responde.
- Mas está incluído, Jorge. Está incluído! Não podemos perder o café. Já viu como é bom o café da manhã do hotel? Precisamos decidir o horário para nos planejarmos.
E assim começa a burocratização dos seus momentos de folga.
- Tanto faz, Joana. E se eu quiser dormir até mais tarde?
- Mas Jorge, temos que acordar cedo pra aproveitar o dia – retruca a Joana.
- Eu aproveito o dia dormindo, Joana. Dormir pra mim é ganhar tempo. Aliás, se eu ficar cansado não aproveitarei mesmo o dia. Quem é que consegue sorrir para o sol com os olhos cheios de remela? – poetiza.
- Então precisamos dormir cedo.
- Mas já está tarde...
Impasse.
Depois de tomarem banho, o casal deita na cama.
- Decidiu, Jorge? – questiona a Joana.
- Decidiu o quê? – você mal-humoriza.
- O café, Jorge. Está incluído, lembra?
- Hm. Amanhã a gente decide! Na pior das hipóteses, vamos ali naquela padaria da esquina, almoçamos direto, sei lá. Se preciso, eu passo o dia com um Doritos, mesmo.
- Hmm. Não, Jorge. Pagamos caro... E café de hotel é ótimo! Aquelas panquecas são uma tentação – argumenta a esposa, gesticulando.
- Tentação é dormir.
- Você não tem jeito, Jorge. Então boa noite.
- Boa noite, Joana.
***
***
Dia seguinte, oito horas da manhã. O telefone do quarto toca e a Joana atende, animada. Era um casal de amigos que também estava no hotel.
- Oooi, Cláudia. Sim, já vamos descer! Sim, claro. Senão não pegamos um bom café. Um beeeijo.
Desliga o telefone.
- Jorge. Acorda, Jorge.
- Grnhmmmmn.
- Vamos lá, se levante, homem. O pessoal já ligou. Temos que nos aprontar para tomar o café! Está incluído na diária, lembra?
- Nhmmpffn...
- JORGE!
Você acorda.
- Joana... OS SABONETINHOS TAMBÉM ESTÃO INCLUÍDOS E VOCÊ NÃO USA NENHUM DELES! – contesta, pulando da cama.
- É diferente, Jorge. Usaria se fossem comestíveis.
- Não sabia que eu tinha casado com um dinossauro. Que apetite, hein – você ironiza.
- Ihhh. Deixa de conversa. Enquanto eu tomo uma ducha vê se lava esse rosto.
- Zzz.
Feita a toalete, ambos correm e encaram o elevador. Encontram com o casal de amigos.
- Ô Jorge. Melhora essa cara, rapaz. Está cedo, mas sabe como é, né? Está incluído na diária... – explica a cônjuge.
- É, Jorge. E você pode até afanar alguns pãezinhos, heh. – sugere o cônjuge.
O grupo chega ao andar do café da manhã, ainda quase vazio. Você, ainda meio descabelado e tentando se lembrar se trocou a camisa do pijama, pega um pratinho. A partir de então passa a ser um novo Jorge. Uma espécie de... Jorgeossauro. Depois de tanta conversa, decide destruir pelo menos metade dos pãezinhos com sua mandíbula. Ficaria com manteiga besuntada até nas sobrancelhas, e beiraria a overdose com sucos e bolos artificiais. Sua frustração seria doce, afinal.
Antes de chegar à mesa, o saldo é de três pães de queijo e duas rosquinhas já devorados. Afinal, estava tudo incluído. Uma delícia.
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Clique aqui e leia a parte 2.
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Clique aqui e leia a parte 2.
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Festa de criança, calorias e espetinhos de frango
Festa de criança tem uma aura diferente. Afinal, como é possível reunir dúzias de guris sem que (geralmente) haja algum tipo de catástrofe? Inexplicável. Assim que você chega, os empurrões em suas canelas (causados pelo tráfego mirim) denunciam que aquele é um ambiente incomum. Se não tomar cuidado, você pode até atropelar alguém. Ou ser atropelado por um comboio.
E festa com cama elástica? Magia pura. Afinal, talvez este seja o único método eficaz para confinar 27 crianças em um espaço com capacidade para umas 12, no máximo. Elimina-se, de uma vez só, a correria entre as mesas, a queda misteriosa das cadeiras e a tradicional ralação de joelhos. Você se preocupa com o risco de um esborrachamento coletivo no brinquedo, mas logo se resigna ao papel de convidado. Engole os palpites junto com um copinho de refrigerante.
Após os cumprimentos e a entrega do presente (que a criança nem olha, ou que fica guardado com alguém), acha uma mesa. De preferência perto da cozinha. Afinal, tão importante quanto o carinho com o aniversariante é o apreço às frituras e aos açúcares. Em festa de criança vale até sair da dieta. Vale destruir a dieta.
Assim que você se senta, descobre uma pequena bandeja de salgadinhos em sua mesa. Prontamente começa a degustar tudo, como se sua vida dependesse disso. Vem a garçonete:
- Aceita mais um pratinho, senhor?
- Sim, por favor - responde, glutão.
O ritual se repete algumas vezes, e suas pernas dormentes denunciam que você não se levantou durante a primeira hora do festejo. Interagiu apenas com uns dois adultos e com o Rodrigo, que descobriu ser sobrinho da prima de uma convidada. Criança esperta, o Rodrigo. Resolve se levantar e dar uma espiada no pula-pula – que a essa hora já havia concentrado 33 crianças e oito brinquedos (pisoteados) simultaneamente.
Levanta-se e logo oferecem uma coxinha. Você aceita, apesar de, em menos de uma hora, já ter consumido gordura suficiente para entupir a carótida. Uma delícia. No caminho, observa um grupo de crianças disputando uma espécie de corrida em uma escada, enquanto alguns dissidentes do pula-pula passavam de mesa em mesa demonstrando verdadeiros talentos de parkour.
Mal engole a coxinha, e logo em seguida chega a você o mini-espetinho de frango. Irresistível. A primeira mordida rapidamente dá lugar a momentos de pânico incontrolável: aquele fiapo de frango ficou agarrado entre os molares, e uma análise sensorial mais atenta mostra que os incisivos também foram vítimas.
Você luta com a língua, em silêncio, e nada do frango sair. Tenta exaustivamente arrancar aquele intruso de sua boca sem que ninguém perceba, mas o máximo que consegue é uma dor na língua. Resolve mudar o trajeto e ir ao banheiro. No caminho, desvia de sete caminhões de plástico, dois palhaços e um trenzinho de brinquedo, para se dar conta de que errou a direção. Volta, enquanto sente que, sem querer, quase chutou três garotos que (jura) brotaram do chão.
Ao chegar lá, percebe que não há espelho. Tampouco fio dental. Enxágua a boca, tenta arrancar uma linha da própria roupa para fazer o serviço sujo, sem sucesso. Derrotado, volta para a mesa. Higiênico e com uma obsessão especial por dentes limpos, você decide não falar mais. Nas conversas seguintes, responde apenas com grunhidos emitidos com a mão sobre a boca.
- Hmm. Hm-hum. Nmmmm, diz.
- Grhnonon hmm?, indaga.
Enquanto isso, mais um grupo de crianças excursiona pela escada. Muitas ainda carregam presentes, e a outra parte da turba se concentra em segurar um cachorro ainda filhote. “De onde surgiu esse cachorro?”, pensa. “Será que foi presente?”. Se tivesse que apontar um responsável pelo sequestro, o palpite iria para o menino com a máscara de leãozinho. O jeito fofo dele não o engana. Ou teria sido a Joana, aquela com a câmera? Uma fofura, também. Ou seria uma dessas anarquistas da imprensa, disfarçada? Hmm.
Chega a mãe do aniversariante e corta seus pensamentos.
- Vamos cantar o parabéns? – grita.
- Hmmphs! – você responde.
Nova jornada até a mesa do bolo. Mas dessa vez, ao menos, poderia comer os doces. Sem fiapos.
Festa de criança é uma beleza, mesmo.
E festa com cama elástica? Magia pura. Afinal, talvez este seja o único método eficaz para confinar 27 crianças em um espaço com capacidade para umas 12, no máximo. Elimina-se, de uma vez só, a correria entre as mesas, a queda misteriosa das cadeiras e a tradicional ralação de joelhos. Você se preocupa com o risco de um esborrachamento coletivo no brinquedo, mas logo se resigna ao papel de convidado. Engole os palpites junto com um copinho de refrigerante.
Após os cumprimentos e a entrega do presente (que a criança nem olha, ou que fica guardado com alguém), acha uma mesa. De preferência perto da cozinha. Afinal, tão importante quanto o carinho com o aniversariante é o apreço às frituras e aos açúcares. Em festa de criança vale até sair da dieta. Vale destruir a dieta.
Assim que você se senta, descobre uma pequena bandeja de salgadinhos em sua mesa. Prontamente começa a degustar tudo, como se sua vida dependesse disso. Vem a garçonete:
- Aceita mais um pratinho, senhor?
- Sim, por favor - responde, glutão.
O ritual se repete algumas vezes, e suas pernas dormentes denunciam que você não se levantou durante a primeira hora do festejo. Interagiu apenas com uns dois adultos e com o Rodrigo, que descobriu ser sobrinho da prima de uma convidada. Criança esperta, o Rodrigo. Resolve se levantar e dar uma espiada no pula-pula – que a essa hora já havia concentrado 33 crianças e oito brinquedos (pisoteados) simultaneamente.
Levanta-se e logo oferecem uma coxinha. Você aceita, apesar de, em menos de uma hora, já ter consumido gordura suficiente para entupir a carótida. Uma delícia. No caminho, observa um grupo de crianças disputando uma espécie de corrida em uma escada, enquanto alguns dissidentes do pula-pula passavam de mesa em mesa demonstrando verdadeiros talentos de parkour.
Mal engole a coxinha, e logo em seguida chega a você o mini-espetinho de frango. Irresistível. A primeira mordida rapidamente dá lugar a momentos de pânico incontrolável: aquele fiapo de frango ficou agarrado entre os molares, e uma análise sensorial mais atenta mostra que os incisivos também foram vítimas.
Você luta com a língua, em silêncio, e nada do frango sair. Tenta exaustivamente arrancar aquele intruso de sua boca sem que ninguém perceba, mas o máximo que consegue é uma dor na língua. Resolve mudar o trajeto e ir ao banheiro. No caminho, desvia de sete caminhões de plástico, dois palhaços e um trenzinho de brinquedo, para se dar conta de que errou a direção. Volta, enquanto sente que, sem querer, quase chutou três garotos que (jura) brotaram do chão.
Ao chegar lá, percebe que não há espelho. Tampouco fio dental. Enxágua a boca, tenta arrancar uma linha da própria roupa para fazer o serviço sujo, sem sucesso. Derrotado, volta para a mesa. Higiênico e com uma obsessão especial por dentes limpos, você decide não falar mais. Nas conversas seguintes, responde apenas com grunhidos emitidos com a mão sobre a boca.
- Hmm. Hm-hum. Nmmmm, diz.
- Grhnonon hmm?, indaga.
Enquanto isso, mais um grupo de crianças excursiona pela escada. Muitas ainda carregam presentes, e a outra parte da turba se concentra em segurar um cachorro ainda filhote. “De onde surgiu esse cachorro?”, pensa. “Será que foi presente?”. Se tivesse que apontar um responsável pelo sequestro, o palpite iria para o menino com a máscara de leãozinho. O jeito fofo dele não o engana. Ou teria sido a Joana, aquela com a câmera? Uma fofura, também. Ou seria uma dessas anarquistas da imprensa, disfarçada? Hmm.
Chega a mãe do aniversariante e corta seus pensamentos.
- Vamos cantar o parabéns? – grita.
- Hmmphs! – você responde.
Nova jornada até a mesa do bolo. Mas dessa vez, ao menos, poderia comer os doces. Sem fiapos.
Festa de criança é uma beleza, mesmo.
domingo, 3 de agosto de 2014
Dilemas de consultório
O sujeito chega ao consultório e a secretária logo pega o telefone:
- Aloan. Sim, é do consultório do doutor Horácio. Sim, ele tem vaga pra próxima semana. Qual o nome? Sim, o nome. Eu preciso do nome para marcar a consulta, meobem. Do paciente, correto. Sim, paciente é o doente, no caso.
Enquanto isso você fica lá parado, esperando, com um olhar compreensivo (afinal, atender as ligações faz parte do trabalho dela). Fica quase admirado com a calma da jovem. Paciente é ela, pensa. Segue a conversa:
- É com dois T’s? Ah, sim, com dois P’s. Tem H depois? Ah, certo. Pode soletrar e confirmar então, por favor? Arram. Arram. Certo. Oquei. Entendi. Marcado então, seu Stepphano.
Ela desliga o telefone ao mesmo tempo em que você abre um sorriso piedoso. Com um sinal, ela lhe convida a se aproximar, e pede o documento de identificação. Você o apresenta imediatamente, pulando (com sorte) o embaraço de abrir a carteira com pressa e despejar no chão meses de papeis acumulados, frutos da sua procrastinação. Ao menos eliminou o risco de ser visto como um obsessivo compulsivo porco.
A secretária compara sua foto no documento com sua face atual. Você se sente ridículo – afinal, aquela foto tem mais de dez anos. E hoje você tem mais que uma dezena de novos fios brancos. Ela começa a preencher o cadastro eletrônico, mas logo se distrai com um e-mail. “Desculpe, mas hoje em dia, sabe como é... Temos que ficar conectados o tempo todo”. Volta ao cadastro.
- Profissão? Urrum. CPF? Endereço? Ah, sim. Conheço essa rua. Uma tia minha mora na vizinhança. E sabe que outro dia... Ela abre a boca e ameaça dizer mais uma palavra, mas logo o telefone volta a tocar. Sem pensar duas vezes, ela atende.
- Aloan. Não, o doutor Horácio não pode atender. Não, infelizmente não. Não, querida. Veja só: ele está em consulta. Daqui a pouquinho você volta a ligar, tá? Promeeeto que passo a ligação pra ele.
E você continua lá, parado, desejando apenas se misturar entre os outros pacientes na sala de espera. Por ser o único de pé (e talvez pelo nariz, que insiste em escorrer) é alvo de todos os olhares. Se sente meio panaca e pensa em buscar uma cadeira, se escondendo atrás de uma planta de plástico no cantinho. Mas logo a secretária retoma:
- Desculpa, meobem. Sabe como é, né? Esse telefone enlouquece a gente. Temos que atender.
- Tudo bem, tudo bem – você responde, enquanto pensa o oposto.
No finalzinho do cadastro, a secretária se lembra de uma informação crucial que deveria ter sido preenchida antes. Ela cancela tudo e abre outra planilha. Começa a digitar o nome e repete a ladainha:
- Profissão? Ah, é mesmo. CPF? Zero três? Não era zero seis? Ah, então tá. Tem razão. Endereço? Hmmmmm, já te falei que uma tia mora na vizi...
Toca o telefone.
- Aloan. Não, o Dr. Horácio ainda está em consulta, querida. Sim, eu sei que pedi para você ligar “daqui a pouquinho”. Acho que dez minutos. Isso.
Enquanto isso você começa a desconfiar da eficácia da sua presença física. A mediação é a chave, pensa. Discretamente pega seu smartphone e começa a redigir um e-mail com todos os dados da sua ficha. Envia, e a secretária o recebe. Imediatamente ela informa:
- Só mais um minutinho, meobem. Chegou outro e-mail, acho que deve ser importante. Hmm. Engraçado. Alguém que mora na mesma rua que minha t...
Toca o telefone.
- Aloan.
Pronto, era o fim. Virou chacota. Você passa a se sentir tão importante quanto a planta de plástico no cantinho. Se não precisasse tanto, desistiria da jornada. Mas a garganta já o atormentava há uma semana. Por fim, resolve agir: pega o telefone e o deixa a postos. Assim que a linha fica livre, liga para a secretária. Ali mesmo, na frente dela.
- Aloan.
- Oi, aqui é o Carlos.
- Quem? Desculpa, meobem. Estão falando um pouco alto aqui no consultório.
- O Carlos. Estou na sua frente.
- Mas por que você ligaria para mim estando na minha frente?
- EU MORO NA RUA DA SUA TIA. EU! – você esbraveja, enquanto gesticula e toma o telefone da mão da secretária.
Finalmente seria atendido – isso se a impressão digital já estivesse cadastrada pelo plano de saúde. Mas já era uma vitória. O homem venceu as máquinas, ainda que temporariamente.
- Aloan. Sim, é do consultório do doutor Horácio. Sim, ele tem vaga pra próxima semana. Qual o nome? Sim, o nome. Eu preciso do nome para marcar a consulta, meobem. Do paciente, correto. Sim, paciente é o doente, no caso.
Enquanto isso você fica lá parado, esperando, com um olhar compreensivo (afinal, atender as ligações faz parte do trabalho dela). Fica quase admirado com a calma da jovem. Paciente é ela, pensa. Segue a conversa:
- É com dois T’s? Ah, sim, com dois P’s. Tem H depois? Ah, certo. Pode soletrar e confirmar então, por favor? Arram. Arram. Certo. Oquei. Entendi. Marcado então, seu Stepphano.
Ela desliga o telefone ao mesmo tempo em que você abre um sorriso piedoso. Com um sinal, ela lhe convida a se aproximar, e pede o documento de identificação. Você o apresenta imediatamente, pulando (com sorte) o embaraço de abrir a carteira com pressa e despejar no chão meses de papeis acumulados, frutos da sua procrastinação. Ao menos eliminou o risco de ser visto como um obsessivo compulsivo porco.
A secretária compara sua foto no documento com sua face atual. Você se sente ridículo – afinal, aquela foto tem mais de dez anos. E hoje você tem mais que uma dezena de novos fios brancos. Ela começa a preencher o cadastro eletrônico, mas logo se distrai com um e-mail. “Desculpe, mas hoje em dia, sabe como é... Temos que ficar conectados o tempo todo”. Volta ao cadastro.
- Profissão? Urrum. CPF? Endereço? Ah, sim. Conheço essa rua. Uma tia minha mora na vizinhança. E sabe que outro dia... Ela abre a boca e ameaça dizer mais uma palavra, mas logo o telefone volta a tocar. Sem pensar duas vezes, ela atende.
- Aloan. Não, o doutor Horácio não pode atender. Não, infelizmente não. Não, querida. Veja só: ele está em consulta. Daqui a pouquinho você volta a ligar, tá? Promeeeto que passo a ligação pra ele.
E você continua lá, parado, desejando apenas se misturar entre os outros pacientes na sala de espera. Por ser o único de pé (e talvez pelo nariz, que insiste em escorrer) é alvo de todos os olhares. Se sente meio panaca e pensa em buscar uma cadeira, se escondendo atrás de uma planta de plástico no cantinho. Mas logo a secretária retoma:
- Desculpa, meobem. Sabe como é, né? Esse telefone enlouquece a gente. Temos que atender.
- Tudo bem, tudo bem – você responde, enquanto pensa o oposto.
No finalzinho do cadastro, a secretária se lembra de uma informação crucial que deveria ter sido preenchida antes. Ela cancela tudo e abre outra planilha. Começa a digitar o nome e repete a ladainha:
- Profissão? Ah, é mesmo. CPF? Zero três? Não era zero seis? Ah, então tá. Tem razão. Endereço? Hmmmmm, já te falei que uma tia mora na vizi...
Toca o telefone.
- Aloan. Não, o Dr. Horácio ainda está em consulta, querida. Sim, eu sei que pedi para você ligar “daqui a pouquinho”. Acho que dez minutos. Isso.
Enquanto isso você começa a desconfiar da eficácia da sua presença física. A mediação é a chave, pensa. Discretamente pega seu smartphone e começa a redigir um e-mail com todos os dados da sua ficha. Envia, e a secretária o recebe. Imediatamente ela informa:
- Só mais um minutinho, meobem. Chegou outro e-mail, acho que deve ser importante. Hmm. Engraçado. Alguém que mora na mesma rua que minha t...
Toca o telefone.
- Aloan.
Pronto, era o fim. Virou chacota. Você passa a se sentir tão importante quanto a planta de plástico no cantinho. Se não precisasse tanto, desistiria da jornada. Mas a garganta já o atormentava há uma semana. Por fim, resolve agir: pega o telefone e o deixa a postos. Assim que a linha fica livre, liga para a secretária. Ali mesmo, na frente dela.
- Aloan.
- Oi, aqui é o Carlos.
- Quem? Desculpa, meobem. Estão falando um pouco alto aqui no consultório.
- O Carlos. Estou na sua frente.
- Mas por que você ligaria para mim estando na minha frente?
- EU MORO NA RUA DA SUA TIA. EU! – você esbraveja, enquanto gesticula e toma o telefone da mão da secretária.
Finalmente seria atendido – isso se a impressão digital já estivesse cadastrada pelo plano de saúde. Mas já era uma vitória. O homem venceu as máquinas, ainda que temporariamente.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
Sobre o prazer das filas e um encontro com o Veríssimo
| Filas triplas: diversão garantida. |
Particularmente acho que as filas são um sistema justo (até que alguém tente furá-las, claro), e, mais que isso: por mais entediantes que possam ser para os mais apressados ou pessimistas, funcionam como uma contagem regressiva. Chegar na outra ponta é praticamente uma vitória - basta perguntar a alguém que está na fila do banheiro. Não distribuem medalhas (e na maioria dos casos ainda pegam um pouco do seu dinheiro), mas há, invariavelmente, a sensação de dever cumprido, de ter alcançado o pote de ouro no final do arco-íris. Por alguns segundos tudo parece ter valido a pena. Sem glamour, chuva de papel picado ou garrafas de champanhe - mas ainda assim. Menos uma conta. Menos um problema.
O real motivo do post
| "Err.. Oi, Veríssimo! Obrigado por me inspirar" |
Sensação estranha essa de ver ali, na sua frente, a personificação de um ídolo. As pernas tremem um pouco, suas mãos passam a ser intrusas no seu próprio corpo. Sobram. "Devo cumprimentá-lo efusivamente? Acenar com a cabeça? Correr e abraçá-lo?"foram alguns dos pensamentos mais imediatos. Fiquei só no aperto de mão e na troca de algumas palavras, mas comprovei que, além do nome, ele é mesmo superlativo absoluto sintético (já que é assumidamente mais calado, heh).
De repente, todos aqueles textos que fizeram (e fazem) parte da minha vida ganharam um pai de carne e osso, que tem nas palavras medidas uma fonte de inspiração não apenas literária, mas para a vida. O Veríssimo começou a escrever depois dos trinta, criou um estilo próprio e fugiu da sombra do pai. Foi um sucesso gradual e retumbante. Por isso é inspiração para os que ainda ficam perdidos/desiludidos/desorientados com todas as pressões profissionais e do cotidiano (como eu). O Veríssimo me mostrou que, por pior que uma situação pareça, ao menos rende uma crônica. Nem que seja sobre filas, braguilhas ou ervilhas. Valeu a pena esperar.
domingo, 27 de julho de 2014
Livro pra presente
Este é apenas um breve relato de L., um homem que possuía o hábito de dar livros de presente. Em qualquer ocasião, lá estava ele, com livro e dedicatória em mãos. Para L., o gesto significava mais do que o carinho comum atribuído ao presentear. Significava uma jornada prazerosa, concluída após muita pesquisa – afinal, a cada data comemorativa ele passava horas na livraria em busca do título ideal, ou vasculhava o repertório literário mental durante bons momentos. “É preciso, afinal, adequar a obra à pessoa”, acreditava. Tarefa delicada. Com tantas opções, haveria critérios demais a serem considerados. Letras demais a serem analisadas. Na dúvida, L. confiava nos seus próprios gostos e julgamentos.
Junto com esse costume, ele adquiriu também um hábito questionável: L. gostava de ler tudo logo após a compra. Mesmo que fosse um presente – o que significava violar as páginas de um novo livro, infringindo o prazer do receptor em desvirginar tão sedosas páginas. De modos pacatos, esta era a única ousadia a qual se permitia conscientemente. Era um maníaco literário. Desobedecia as amarras sociais e, ao pensar nisso, sorria.
Apesar de contestável, não se pode dizer que a quase defloração de lombadas e encadernamentos eram ações pouco generosas ou mesquinhas. L. pensava nisso tudo como um test-drive contra os maus títulos. Assim ele protegeria o presenteado das possíveis falácias gramaticais e checaria a qualidade de páginas e palavras (aproveitando para dar uma verificada atrás das orelhas – partes integrantes, apesar de esquecidas, de um corpo literário).
O gesto peculiar acabou criando um problema financeiro-psicológico para L.: no fim, ele não conseguia se desfazer das obras recém-adquiridas. Se fossem ruins, não haveria coragem para presentear; se boas, pior ainda: guardava para sua própria coleção. A solução? Ir novamente à livraria e comprar um novo exemplar – recomeçando toda a jornada (um tanto penosa em caso de desilusão ortográfico-literária). Mais aniversários, mais gastos, mais leituras acumuladas, tudo resultando em mais stress – que pelo menos rendia alguma cultura extra, no fim das contas.
Quando aumentou o círculo social, começou a enlouquecer. Mal dava conta das leituras cotidianas, e quando percebia já era refém de nova efeméride. Pensava com alegria no bolo e na esbórnia vindouros (como um bom glutão), mas lembrava também do livro a ser entregue como presente. Aquelas cedilhas pendentes, os travessões ameaçadores e os objetos nem sempre tão diretos o assombravam. Ficava desesperado, e, ao mesmo tempo, se entristecia ao lembrar da aposentadoria do trema. Por uma semana faltava tempo e sobrava angústia. Pior: sobravam palavras.
Em alguns meses passou a ter de lidar com mais de um aniversário por semana e, com isso, veio a cartada final: L. não mais conseguia fazer a leitura prévia das obras, como sua obsessão exigia. Para isso, precisaria de uma agenda própria, um planejamento literário. Desistiu. Por um tempo, viveu a sensação de aventura ao presentear com um título até então desconhecido. Mas foi dissuadido por seus próprios pensamentos: “E se o livro tivesse um magnífico título, avaliações perspicazes, mas, no fim das contas, falasse sobre... Cebolinhas? Aspargos? Tecidos e estampas?”, questionava. Um perigo paradoxal envolvendo palpitação e monotonia em centenas de páginas.
Por motivos de saúde (dele, não dos outros), acabou desistindo de presentear com livros; a partir de então eles seriam apenas artigos de uso próprio ou familiar. Optou por presentear com chocolates, guloseimas gordurosas e vinhos: menos intenso, mas (ironicamente) muito mais saudável. Na pior das hipóteses, ao menos o brinde já estaria garantido.
Junto com esse costume, ele adquiriu também um hábito questionável: L. gostava de ler tudo logo após a compra. Mesmo que fosse um presente – o que significava violar as páginas de um novo livro, infringindo o prazer do receptor em desvirginar tão sedosas páginas. De modos pacatos, esta era a única ousadia a qual se permitia conscientemente. Era um maníaco literário. Desobedecia as amarras sociais e, ao pensar nisso, sorria.
Apesar de contestável, não se pode dizer que a quase defloração de lombadas e encadernamentos eram ações pouco generosas ou mesquinhas. L. pensava nisso tudo como um test-drive contra os maus títulos. Assim ele protegeria o presenteado das possíveis falácias gramaticais e checaria a qualidade de páginas e palavras (aproveitando para dar uma verificada atrás das orelhas – partes integrantes, apesar de esquecidas, de um corpo literário).
O gesto peculiar acabou criando um problema financeiro-psicológico para L.: no fim, ele não conseguia se desfazer das obras recém-adquiridas. Se fossem ruins, não haveria coragem para presentear; se boas, pior ainda: guardava para sua própria coleção. A solução? Ir novamente à livraria e comprar um novo exemplar – recomeçando toda a jornada (um tanto penosa em caso de desilusão ortográfico-literária). Mais aniversários, mais gastos, mais leituras acumuladas, tudo resultando em mais stress – que pelo menos rendia alguma cultura extra, no fim das contas.
Quando aumentou o círculo social, começou a enlouquecer. Mal dava conta das leituras cotidianas, e quando percebia já era refém de nova efeméride. Pensava com alegria no bolo e na esbórnia vindouros (como um bom glutão), mas lembrava também do livro a ser entregue como presente. Aquelas cedilhas pendentes, os travessões ameaçadores e os objetos nem sempre tão diretos o assombravam. Ficava desesperado, e, ao mesmo tempo, se entristecia ao lembrar da aposentadoria do trema. Por uma semana faltava tempo e sobrava angústia. Pior: sobravam palavras.
Em alguns meses passou a ter de lidar com mais de um aniversário por semana e, com isso, veio a cartada final: L. não mais conseguia fazer a leitura prévia das obras, como sua obsessão exigia. Para isso, precisaria de uma agenda própria, um planejamento literário. Desistiu. Por um tempo, viveu a sensação de aventura ao presentear com um título até então desconhecido. Mas foi dissuadido por seus próprios pensamentos: “E se o livro tivesse um magnífico título, avaliações perspicazes, mas, no fim das contas, falasse sobre... Cebolinhas? Aspargos? Tecidos e estampas?”, questionava. Um perigo paradoxal envolvendo palpitação e monotonia em centenas de páginas.
Por motivos de saúde (dele, não dos outros), acabou desistindo de presentear com livros; a partir de então eles seriam apenas artigos de uso próprio ou familiar. Optou por presentear com chocolates, guloseimas gordurosas e vinhos: menos intenso, mas (ironicamente) muito mais saudável. Na pior das hipóteses, ao menos o brinde já estaria garantido.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Sobre a desnecessária formalização do amor
Por que falar de amor é algo tão formal? Fico imaginando como seriam algumas situações sem as formalidades já padronizadas. Já há manuais, livros, tudo na tentativa de formalizar a fórmula certa. Sem sucesso.
Até mesmo para escrever sobre o assunto é assim: preparamos nossas palavras mais difíceis, ligamos sentenças com maestria ou tecemos versos como poetas da gramática, e não da paixão. Em muitas ocasiões nos preocupamos em registrar ali o léxico perfeito, e não o que nos consome, o que soa mais urgente. O visceral fica em segundo plano. (Talvez pela própria natureza da ideia ‘visceral’. O mais imediato é gritar e chorar, não escrever).
Exemplo clássico da formalidade do amor é o “precisamos conversar”. A frase traz, de imediato, presságios solenes e impessoais. Já armamos a nossa guarda enquanto buscamos nos desfazer do automático nó na garganta. Tentamos, inutilmente, nos proteger do sofrimento que parece inevitável: daquela punhalada nas costas que está prestes a nos rasgar por dentro. E depois agüentamos todo aquele impacto repentino. Uma bomba.
[que fique claro: não defendo, com isso, a conversa total e exclusivamente impessoal por sms, e-mail. Ainda acho que 'o meio é a mensagem' - alô, McLuhan!].
Até com os amigos é assim: "Vamos marcar de conversar? Preciso de alguns conselhos". Marca-se o encontro e, então, a revelação: "Acho que estou apaixonado pela Ju!". Por que não dizer logo? Comemorar? Adiantaria-se os cálculos da (im)provável reciprocidade.
E as alianças, então? Outra formalização do sentimento. Parece-nos que não basta sentir: é preciso mostrar que sentimos. E que sentimos muito, amamos intensamente, mais do que qualquer outro casal. Precisamos ser 'mais', superiores em tudo - inclusive na dor. Vivemos com a constante necessidade de aprovação (No plural. Não me excluo disso, pelo contrário).
Não desprezo ou rebaixo a importância do amor, mas destaco a naturalidade do sentimento. Todo mundo ama (ou já quis amar), e nada mais justo do que sentir, aproveitar sem delongas o que as doses de ocitocina nos proporcionam.
Já imaginou falar sobre ardentes paixões em uma mesa de bar? Entre os homens fala-se de sexo, mas raramente há divagações e questionamentos sem que haja embaraço de um dos presentes. "Homem não pode ser sensível desse jeito!", pensam. Muda-se o assunto rapidinho. Afinal, ninguém quer ser visto como o antiquado da turma. O 'fresco'.
De certa forma é interessante imaginar o amor descomplicado. Fica até cômico. "Oi, Sara! Barulhento aqui no bar, né? Mas então. Você é linda, adoro suas ideias, acho que me apaixonei por você!" – diria o rapaz, enquanto gesticula para que lhe passem as batatas na outra ponta da mesa e tenta, em vão, remover aquele pedaço da porção de frango à passarinho que insiste em permanecer entre seus incisivos.
No mesmo momento alguém também pediria: "garçom! Ei, garçom! Me traz aí um amor, mas nada dessas porcarias idealizadas! Porção? Não, não. Amor deve ser servido inteiro. E capricha no tempero!".
Definitivamente saboroso.
__
TÁXI
"O poeta passa de táxi em qualquer canto e lá vê
o amante da empregada doméstica sussurrar
em seu pescoço qualquer podridão
deste universo.
Como será o amor das pessoas rudes? O poeta não se conforma de não conhecer
todas as formas de delicadeza."
(CACASO, 2002)
Até mesmo para escrever sobre o assunto é assim: preparamos nossas palavras mais difíceis, ligamos sentenças com maestria ou tecemos versos como poetas da gramática, e não da paixão. Em muitas ocasiões nos preocupamos em registrar ali o léxico perfeito, e não o que nos consome, o que soa mais urgente. O visceral fica em segundo plano. (Talvez pela própria natureza da ideia ‘visceral’. O mais imediato é gritar e chorar, não escrever).
Exemplo clássico da formalidade do amor é o “precisamos conversar”. A frase traz, de imediato, presságios solenes e impessoais. Já armamos a nossa guarda enquanto buscamos nos desfazer do automático nó na garganta. Tentamos, inutilmente, nos proteger do sofrimento que parece inevitável: daquela punhalada nas costas que está prestes a nos rasgar por dentro. E depois agüentamos todo aquele impacto repentino. Uma bomba.
[que fique claro: não defendo, com isso, a conversa total e exclusivamente impessoal por sms, e-mail. Ainda acho que 'o meio é a mensagem' - alô, McLuhan!].
Até com os amigos é assim: "Vamos marcar de conversar? Preciso de alguns conselhos". Marca-se o encontro e, então, a revelação: "Acho que estou apaixonado pela Ju!". Por que não dizer logo? Comemorar? Adiantaria-se os cálculos da (im)provável reciprocidade.
E as alianças, então? Outra formalização do sentimento. Parece-nos que não basta sentir: é preciso mostrar que sentimos. E que sentimos muito, amamos intensamente, mais do que qualquer outro casal. Precisamos ser 'mais', superiores em tudo - inclusive na dor. Vivemos com a constante necessidade de aprovação (No plural. Não me excluo disso, pelo contrário).
Não desprezo ou rebaixo a importância do amor, mas destaco a naturalidade do sentimento. Todo mundo ama (ou já quis amar), e nada mais justo do que sentir, aproveitar sem delongas o que as doses de ocitocina nos proporcionam.
Já imaginou falar sobre ardentes paixões em uma mesa de bar? Entre os homens fala-se de sexo, mas raramente há divagações e questionamentos sem que haja embaraço de um dos presentes. "Homem não pode ser sensível desse jeito!", pensam. Muda-se o assunto rapidinho. Afinal, ninguém quer ser visto como o antiquado da turma. O 'fresco'.
De certa forma é interessante imaginar o amor descomplicado. Fica até cômico. "Oi, Sara! Barulhento aqui no bar, né? Mas então. Você é linda, adoro suas ideias, acho que me apaixonei por você!" – diria o rapaz, enquanto gesticula para que lhe passem as batatas na outra ponta da mesa e tenta, em vão, remover aquele pedaço da porção de frango à passarinho que insiste em permanecer entre seus incisivos.
No mesmo momento alguém também pediria: "garçom! Ei, garçom! Me traz aí um amor, mas nada dessas porcarias idealizadas! Porção? Não, não. Amor deve ser servido inteiro. E capricha no tempero!".
Definitivamente saboroso.
__
TÁXI
"O poeta passa de táxi em qualquer canto e lá vê
o amante da empregada doméstica sussurrar
em seu pescoço qualquer podridão
deste universo.
Como será o amor das pessoas rudes? O poeta não se conforma de não conhecer
todas as formas de delicadeza."
(CACASO, 2002)
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Saudosismo, trema e um eu-lírico neologista
Houve um tempo que o não-uso do trema significaria a perda de pontos na escola. Hoje é “cafonice”, sinal de que o escritor “não se adapta às mudanças do nosso tempo”.
Em breve nossos filhos dirão, enquanto observam curiosos os livros que ajudaram em nossa formação (cafona):
_ Papai! Que estranho! O que são esses dois pontinhos que estão em cima do “u”?
_ Chama-se trema, meu filho – responderemos, cheios de saudosismo.
_ Trema? Para que serve isso?
_ Antigamente nós o usávamos para indicar que o som do “u” era pronunciado.
_ Ah... Mas se tem “u” na palavra, por que a gente não ia falar o som dele?
_ Guilherme, meu filho...
Quando este tempo chegar, espero não ter mais arrepios ao ver a nova grafia das palavras. Mesmo algum tempo depois da Reforma Ortográfica, me surpreendo ao verificar que ainda não atingi a autossuficiência (sic? hehe) gramatical. Talvez eu devesse deixar as regras de lado e dar mais espaço ao meu eu-lírico neologista e antiquado. Veremos.
Em breve nossos filhos dirão, enquanto observam curiosos os livros que ajudaram em nossa formação (cafona):
_ Papai! Que estranho! O que são esses dois pontinhos que estão em cima do “u”?
_ Chama-se trema, meu filho – responderemos, cheios de saudosismo.
_ Trema? Para que serve isso?
_ Antigamente nós o usávamos para indicar que o som do “u” era pronunciado.
_ Ah... Mas se tem “u” na palavra, por que a gente não ia falar o som dele?
_ Guilherme, meu filho...
Quando este tempo chegar, espero não ter mais arrepios ao ver a nova grafia das palavras. Mesmo algum tempo depois da Reforma Ortográfica, me surpreendo ao verificar que ainda não atingi a autossuficiência (sic? hehe) gramatical. Talvez eu devesse deixar as regras de lado e dar mais espaço ao meu eu-lírico neologista e antiquado. Veremos.
domingo, 12 de maio de 2013
Momento fugaz, paixão idealizada e plenitude distante
Geralmente acordo querendo evitar a tradicional indisposição que, no meu caso, ultrapassa os costumeiros devaneios vazios de uma mente perturbada e (ou) um tanto inquieta. Estranho notar como os pensamentos ganham forma, fundem-se e acabam se tornando uma tenebrosa, confusa (e quase palpável) primeiridade psicológico-sentimental. Quisera eu que isso fosse restrito a dias mais conturbados ou abalados pela necessidade urgente de paixão irrestrita. Mas não.
A percepção é inicial, o lampejo, momentâneo, mas intenso; é o primeiro passo rumo à complexidade ainda desconhecida... O turbilhão que se forma já entrelaçado em uma rede incompreensível de falsos amores torna tudo visceral: complexo, mas incompleto. Seria o surgimento de um ser obstinado, um protótipo de amante mal amado? A encarnação de um companheiro idealizado por psiquês abstratas, estimulado por estúpidas Psiquês? Um Eros desenganado, punido (além da mitologia) por Afrodite? Sabe-se apenas que é um momento fugaz – mas ora, (in)felizmente os dias se arrastam por sucessivos e incontáveis momentos. Isso cria constância. Vira paranóia. Chega ao terrorismo psicológico que não é vencido por falsas autoafirmações. Percepções sucessivas jamais podem ser comparadas à plenitude de um momento.
O gatilho de tudo não é nada original, pelo contrário: recorrente. Vontade de ser idealizado, em vez de idealizar. Não ser venerado, mas minimamente amado por quem possa vencer a subjetividade pueril das afinidades inexistentes. Por quem possa, de fato, ser capaz de tocar. Cativar.
O desejo? Apenas o de muitos: encontrar alguém que realmente enxergue (e não apenas veja). Quem procura? O sentimental com um pouco sentimentalismo barato, o incansável que, ainda hoje, encontra subsistência para as necessidades da alma no platônico, intocável e quase sempre inalcançável (ou alcançável apenas de maneiras bruscas e indesejadas).
Amor também é rasteira que machuca, faz sangrar (e se sente). É ferida que não cicatriza com o passar do tempo - mas nem por isso indesejável. É o indescritível descrito em incontáveis palavras. É a busca incessante regada por decepções.
A rosa, o principezinho, as putas tristes envoltas em memórias, as cartas sem sentido e incompletas na gaveta... Personagens e objetos travestidos de amor. Tudo isto é paixão – ainda que distante.
A percepção é inicial, o lampejo, momentâneo, mas intenso; é o primeiro passo rumo à complexidade ainda desconhecida... O turbilhão que se forma já entrelaçado em uma rede incompreensível de falsos amores torna tudo visceral: complexo, mas incompleto. Seria o surgimento de um ser obstinado, um protótipo de amante mal amado? A encarnação de um companheiro idealizado por psiquês abstratas, estimulado por estúpidas Psiquês? Um Eros desenganado, punido (além da mitologia) por Afrodite? Sabe-se apenas que é um momento fugaz – mas ora, (in)felizmente os dias se arrastam por sucessivos e incontáveis momentos. Isso cria constância. Vira paranóia. Chega ao terrorismo psicológico que não é vencido por falsas autoafirmações. Percepções sucessivas jamais podem ser comparadas à plenitude de um momento.
O gatilho de tudo não é nada original, pelo contrário: recorrente. Vontade de ser idealizado, em vez de idealizar. Não ser venerado, mas minimamente amado por quem possa vencer a subjetividade pueril das afinidades inexistentes. Por quem possa, de fato, ser capaz de tocar. Cativar.
O desejo? Apenas o de muitos: encontrar alguém que realmente enxergue (e não apenas veja). Quem procura? O sentimental com um pouco sentimentalismo barato, o incansável que, ainda hoje, encontra subsistência para as necessidades da alma no platônico, intocável e quase sempre inalcançável (ou alcançável apenas de maneiras bruscas e indesejadas).
Amor também é rasteira que machuca, faz sangrar (e se sente). É ferida que não cicatriza com o passar do tempo - mas nem por isso indesejável. É o indescritível descrito em incontáveis palavras. É a busca incessante regada por decepções.
A rosa, o principezinho, as putas tristes envoltas em memórias, as cartas sem sentido e incompletas na gaveta... Personagens e objetos travestidos de amor. Tudo isto é paixão – ainda que distante.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Clichê cotidiano
Um homem em frente a um computador desligado; braços apoiados na escrivaninha e mãos trêmulas entrelaçadas em frente ao seu rosto. Um cigarro queima no cinzeiro ao lado, e a espessa fumaça torna ainda mais turva sua maneira de ver o seu próprio reflexo no monitor desligado.
Se a vida dele fosse roteirizada, esta seria a mais marcante cena de seus parcos 28 anos de vida. Uma situação banal, clichê e, à primeira vista, sem qualquer essência; era até mesmo risível, não fosse sua complexidade emocional. Mais do que o relato estereotipado de qualquer escritor sem ideias, a situação deixava transparecer o desespero daquele que encontra no próprio olhar a expressão mais nítida do vazio, do não-estar e da mais genuína caracterização do fracasso.
O medo de perder deu lugar à dúvida de não conseguir conquistar. O único êxito passou ser a perda de conquistas, além das infindáveis lágrimas de raiva, ódio, remorso e tristeza. Porém, naquela noite ele não pôde vencer. Restaram apenas os clichês como consolo: secos, viscerais, sem qualquer lágrima para expressar a liquidez dos sentimentos. Naquela noite, a dor foi sua única amiga.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
ONGs e Estado: terceirização ou parceria?
As instituições não governamentais tornaram-se alternativas para a falta de investimentos públicos. Em JF elas são responsáveis pela maioria das políticas sociais
No decorrer do século XX, especificamente após a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1941), o mundo viu surgir um novo padrão de políticas públicas e sociais: o chamado Estado do Bem-estar Social ou Welfare State. Neste sentido, o Estado tornou-se o responsável por suprir as necessidades dos cidadãos nas mais diversas áreas, como saúde, educação e renda, dentre outros, considerados serviços como direitos básicos da população. No Brasil, o Estado do Bem-Estar Social ganhou força durante a ditadura de Getúlio Vargas (1930 – 1945) e conquistou seu apogeu ao longo do período da ditadura militar (1964-1985). Com o fim do antigo regime iniciou-se seu declínio.
Dessa forma, a criação das organizações não governamentais (ONGs) relaciona-se diretamente à extinção das políticas do Welfare State e ainda à consequente queda de investimentos públicos na área de assistência social. O surgimento dessas instituições no Brasil se deu na década de 90, ainda no governo de Fernando Collor (1990 – 1992), quando se iniciou a política neoliberal de corte de investimentos públicos. Era o começo do chamado Estado Mínimo, que teve seu ápice no governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC).
Com menos investimentos públicos, a sociedade viu-se obrigada a buscar outras maneiras de suprir suas demandas, cada vez mais crescentes. Para a cientista social Anete Negreiros, “o processo de ‘ONGzação’ também é resultado do Estado Mínimo. Esse Estado transfere para a sociedade parte de suas responsabilidades, sobretudo, na área social”. Já Renato Lopes, presidente de duas ONGs e uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) em Juiz de Fora (MG), pondera que “você tem um Estado que acaba incentivando isso. Um exemplo foi a criação da lei das OSCIPs pelo FHC. É uma lei que cria entidades diferentes da ONGs, cuja proposta é a terceirização de políticas publicas”.
Segundo dados da última pesquisa do IBGE, realizada em 2006, nesta época já existiam 16.089 entidades de assistência social privadas e sem fins lucrativos no Brasil. Minas Gerais era responsável por abrigar 14.8% desse total, cerca de 2.391.
A realidade de Juiz de Fora
Não há pesquisa formal que aponte o número de ONGs ou Associações Sem Fins Lucrativos na cidade. Porém, o aumento no número de instituições de auxílio social na região é visível. Atualmente, Juiz de Fora possui o Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS), órgão responsável por dar assistência administrativa às entidades afiliadas. No último levantamento feito em 2010, já eram 109 instituições cadastradas. Além disso, o conselho é também é responsável por efetuar os repasses financeiros às entidades. “O Conselho Municipal tem uma regra: só as repassa [as verbas] por um ano, e sua renovação pode acontecer apenas até o terceiro ano. É interessante porque faz a ONG pensar em sustentabilidade; mas as ONGs não têm uma cultura de sustentabilidade. Então, o que acontece depois? As ONGs acabam”, conclui Renato.
Atualmente a maior parte dos serviços de assistência social de Juiz de Fora é feita pelas ONGs ou por projetos do Governo Federal, como o Bolsa Família. “A gente percebe que Juiz de Fora não teve uma grande ação do Estado, sinceramente falando. Eu percebo aqui poucos projetos sociais estatais, e sei disso pela relação que tenho com o próprio Estado”, ressalta Lopes.
Parceria entre ONGs e Estado
A “quebra” das ONGs faz com que a sociedade tenha uma prestação de serviços oscilante, o que interfere também na credibilidade das instituições não-governamentais. É justamente neste ponto em que as políticas sociais públicas devem intervir, estabelecendo uma relação complementar às ações da prefeitura. Segundo o assessor da Secretaria de Assistência Social de Juiz de Fora, Jeferson Rodrigues, “o que funciona mesmo é a questão da parceria”. Renato Lopes concorda: “As ONGs são grandes parceiras do Estado porque elas estão lá na comunidade, elas conhecem as realidades da comunidade, convivem lá. Acho que a ONG pode ser grande parceira; não terceirizando serviços do Estado, mas assessorando, acompanhando”. Lopes destaca ainda que “dependendo do ângulo que você olha é culpa nossa mesmo [das ONGs], na medida em que as entidades fazem com que fique quase cada um por si”.
O desafio de hoje na relação entre ONGs e Estado é identificar qual é o meio termo, até onde vai a responsabilidade de cada um no desenvolvimento e na aplicação das políticas sociais. Anete Negreiros ressalta que “a natureza dos projetos é diferente. O Estado realiza políticas sociais, as ONGs projetos sociais. Política é mais ampla, mesmo que focalizadas para determinado segmento. Os projetos desenvolvidos pelas ONGs são focados em segmentos sociais, regiões e têm uma especificidade e uma estrutura mais reduzida”.
sábado, 27 de novembro de 2010
Rock: novo ou antigo?
O rock antigo ainda é referência para muitas bandas atuais. Mas o rock tocado hoje tem qualidade? A busca pelo lucro interfere na qualidade das composições? Com entrevista do ex-membro do Iron Maiden, Paul Di’Anno, além de Marcelo Gross e Beto Bruno, da banda Cachorro Grande, a Produtora de Notícias responde a estas questões. Veja a reportagem no link abaixo e deixe seu comentário lá!
Clique aqui para assistir.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
A Iniciação Científica como ferramenta de trabalho
Na era do conhecimento, a pesquisa acadêmica aparece como alternativa e abre novos caminhos no mercado profissional.
“Omnia mecum porto”: Tudo o que tenho (de valor), carrego comigo. A frase de Menos Bias (Bias de Priene), sábio grego da antiguidade, foi dita na iminência da invasão da cidade de Priene. Enquanto todos estavam em pânico, juntando seus pertences para fugir, ele permaneceu de mãos vazias. O que ele quis dizer é que já tinha consigo o mais essencial: o conhecimento. Frase antiga, pensamento contemporâneo. É sabido que a cultura do século XXI vai além do trabalho mecânico e o automatismo de outrora; ela considera o conhecimento e a capacidade de utilizá-lo frente às situações do cotidiano como sendo característica essencial para os meios acadêmico e, ainda, profissional. É preciso, mais do que realizar e mostrar resultados, refletir sobre a atividade desempenhada.
Neste sentido, atendendo aos anseios – e crescente necessidade – em buscar o conhecimento, uma alternativa está presente em grande parte das universidades brasileiras: a Iniciação Científica. Os projetos de pesquisa envolvendo os universitários são uma ótima alternativa para aplicar os conhecimentos adquiridos nas mais diversas áreas e, ainda, repassá-los para a sociedade. Segundo Mário Braga, bolsista de iniciação científica há dois anos e meio, “a pesquisa é interessante porque, além da contribuição para o currículo, você cria um olhar crítico no ambiente de trabalho. Você acaba agregando conhecimento e tem um diferencial em relação aos concorrentes”. Para a mestranda em “Comunicação e Sociedade” e editora de reportagem da TV Alterosa, Kelly Scoralick, “a pesquisa dá a oportunidade de parar e repensar a atividade profissional. Não podemos nos distanciar muito da sala de aula, porque senão podemos mudar nossos valores enquanto estudantes, por conta da correria do dia-a-dia. O mercado e a academia precisam andar juntos, ter o complemento um do outro”.
O bom profissional do século XXI deve compreender a sociedade em que vive, e a Iniciação Científica é um importante passo para que os alunos possam refletir o mundo ainda no período da faculdade, visualizando novos caminhos e ampliando seus horizontes. Maximiliano Henriques, gerente comercial da empresa de engenharia consultiva SNC-Lavalin Minerconsult, destaca que, ainda que desenvolvam pesquisas fora de sua área acadêmica, “esses alunos, na sua maioria, aprendem algo que levarão consigo pelo resto da vida profissional, como trabalhar em equipe e ter responsabilidades”. Ele ressalta ainda que “esse perfil reflexivo ajuda em muito no dia-a-dia de trabalho. Os melhores profissionais com os quais trabalhei até hoje quase sempre tiveram esse perfil e se destacaram também por isso. Ele ajuda a conviver, a entender e a respeitar os colegas de trabalho”. Henriques mostra também que uma das dificuldades do mercado profissional envolve o gerenciamento de pessoas, e que o profissional com um perfil acadêmico, reflexivo, se destaca na área empresarial. “Administrar as diferenças, vaidades e ambições acaba sendo a grande tarefa de um profissional, principalmente se o mesmo exerce uma função gerencial. Gerenciamento de pessoas é difícil, muito difícil! Então, se um profissional é tecnicamente bom na sua área, com boa experiência profissional e de vida, e ainda tem esse perfil reflexivo, tenho certeza de que ele terá mais condições de chegar a níveis elevados na sua carreira.”
Novas Oportunidades
O meio acadêmico oferece hoje, por meio de encontros, conferências e congressos, uma oportunidade ampla de disseminação dos trabalhos produzidos. Como todos eles oferecem certificados, servem também para rechear o currículo. Além disso, a participação nestes eventos pode significar também novas oportunidades como, por exemplo, estudar fora do país. Muitos programas de intercâmbio levam em consideração nos seus processos seletivos a apresentação de trabalhos de Iniciação Científica e participação em congressos. A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) é uma delas. Segundo a secretária executiva da Coordenação de Relações Internacionais (CRI) da instituição, Josefa Ferreira, “o processo seletivo considera a Iniciação Científica devido à importância que a mesma tem no desenvolvimento acadêmico dos alunos que a fazem, pois oferece a eles uma oportunidade de participar de um projeto de pesquisa bem estruturado e com professores altamente qualificados”.
Além de aumentar os índices de sucesso e aproveitamento no mercado profissional, o aluno que optar pela Iniciação Cientifica tem, ainda, outra possibilidade de crescimento profissional: a vida acadêmica. Para Paulo Roberto Leal, professor e colaborador do Programa de Educação Tutorial (PET) da Faculdade de Comunicação, “cada vez mais as universidades precisam de gente com titulação acadêmica”. O aumento no número de novas universidades e faculdades nos últimos anos contribui para isso: segundo o Ministério da Educação, foram criadas 14 novas universidades federais nos últimos sete anos. Vale a pena correr atrás desse novo mercado e se dedicar a desenvolver alguns artigos relacionados a assuntos de interesse. “Quanto mais cedo melhor”, afirma Paulo.
*Artigo publicado na revista Ecaderno (www.ecaderno.com)
“Omnia mecum porto”: Tudo o que tenho (de valor), carrego comigo. A frase de Menos Bias (Bias de Priene), sábio grego da antiguidade, foi dita na iminência da invasão da cidade de Priene. Enquanto todos estavam em pânico, juntando seus pertences para fugir, ele permaneceu de mãos vazias. O que ele quis dizer é que já tinha consigo o mais essencial: o conhecimento. Frase antiga, pensamento contemporâneo. É sabido que a cultura do século XXI vai além do trabalho mecânico e o automatismo de outrora; ela considera o conhecimento e a capacidade de utilizá-lo frente às situações do cotidiano como sendo característica essencial para os meios acadêmico e, ainda, profissional. É preciso, mais do que realizar e mostrar resultados, refletir sobre a atividade desempenhada.
Neste sentido, atendendo aos anseios – e crescente necessidade – em buscar o conhecimento, uma alternativa está presente em grande parte das universidades brasileiras: a Iniciação Científica. Os projetos de pesquisa envolvendo os universitários são uma ótima alternativa para aplicar os conhecimentos adquiridos nas mais diversas áreas e, ainda, repassá-los para a sociedade. Segundo Mário Braga, bolsista de iniciação científica há dois anos e meio, “a pesquisa é interessante porque, além da contribuição para o currículo, você cria um olhar crítico no ambiente de trabalho. Você acaba agregando conhecimento e tem um diferencial em relação aos concorrentes”. Para a mestranda em “Comunicação e Sociedade” e editora de reportagem da TV Alterosa, Kelly Scoralick, “a pesquisa dá a oportunidade de parar e repensar a atividade profissional. Não podemos nos distanciar muito da sala de aula, porque senão podemos mudar nossos valores enquanto estudantes, por conta da correria do dia-a-dia. O mercado e a academia precisam andar juntos, ter o complemento um do outro”.
O bom profissional do século XXI deve compreender a sociedade em que vive, e a Iniciação Científica é um importante passo para que os alunos possam refletir o mundo ainda no período da faculdade, visualizando novos caminhos e ampliando seus horizontes. Maximiliano Henriques, gerente comercial da empresa de engenharia consultiva SNC-Lavalin Minerconsult, destaca que, ainda que desenvolvam pesquisas fora de sua área acadêmica, “esses alunos, na sua maioria, aprendem algo que levarão consigo pelo resto da vida profissional, como trabalhar em equipe e ter responsabilidades”. Ele ressalta ainda que “esse perfil reflexivo ajuda em muito no dia-a-dia de trabalho. Os melhores profissionais com os quais trabalhei até hoje quase sempre tiveram esse perfil e se destacaram também por isso. Ele ajuda a conviver, a entender e a respeitar os colegas de trabalho”. Henriques mostra também que uma das dificuldades do mercado profissional envolve o gerenciamento de pessoas, e que o profissional com um perfil acadêmico, reflexivo, se destaca na área empresarial. “Administrar as diferenças, vaidades e ambições acaba sendo a grande tarefa de um profissional, principalmente se o mesmo exerce uma função gerencial. Gerenciamento de pessoas é difícil, muito difícil! Então, se um profissional é tecnicamente bom na sua área, com boa experiência profissional e de vida, e ainda tem esse perfil reflexivo, tenho certeza de que ele terá mais condições de chegar a níveis elevados na sua carreira.”
Novas Oportunidades
O meio acadêmico oferece hoje, por meio de encontros, conferências e congressos, uma oportunidade ampla de disseminação dos trabalhos produzidos. Como todos eles oferecem certificados, servem também para rechear o currículo. Além disso, a participação nestes eventos pode significar também novas oportunidades como, por exemplo, estudar fora do país. Muitos programas de intercâmbio levam em consideração nos seus processos seletivos a apresentação de trabalhos de Iniciação Científica e participação em congressos. A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) é uma delas. Segundo a secretária executiva da Coordenação de Relações Internacionais (CRI) da instituição, Josefa Ferreira, “o processo seletivo considera a Iniciação Científica devido à importância que a mesma tem no desenvolvimento acadêmico dos alunos que a fazem, pois oferece a eles uma oportunidade de participar de um projeto de pesquisa bem estruturado e com professores altamente qualificados”.
Além de aumentar os índices de sucesso e aproveitamento no mercado profissional, o aluno que optar pela Iniciação Cientifica tem, ainda, outra possibilidade de crescimento profissional: a vida acadêmica. Para Paulo Roberto Leal, professor e colaborador do Programa de Educação Tutorial (PET) da Faculdade de Comunicação, “cada vez mais as universidades precisam de gente com titulação acadêmica”. O aumento no número de novas universidades e faculdades nos últimos anos contribui para isso: segundo o Ministério da Educação, foram criadas 14 novas universidades federais nos últimos sete anos. Vale a pena correr atrás desse novo mercado e se dedicar a desenvolver alguns artigos relacionados a assuntos de interesse. “Quanto mais cedo melhor”, afirma Paulo.
*Artigo publicado na revista Ecaderno (www.ecaderno.com)
domingo, 20 de junho de 2010
Travesseiros ou Vuvuzelas?
Acordei. Reclamei mentalmente durante alguns minutos por ter que levantar precocemente. Naquele momento o pensamento mais sensato em minha mente era pular da ponte mais próxima, para ver se, enfim, poderia ter algum momento de paz e descansar durante mais algum tempo. De início, uma eternidade já bastaria. Passar 90% do tempo no trabalho até que é fácil; o grande problema é ser obrigado conviver com algumas dúzias de vuvuzelas no restante do tempo. Na minha infância elas já existiam, mas não me lembrava do seu natural e mágico potencial infernizador. Vai ver é um problema sintático-morfológico, já que eu as nomeava simplesmente como aquelas cornetas grandes. Ou então vai ver a grande questão era eu pertencer à infância: inserido no meio, talvez não pudesse percebê-lo claramente. Um dia ainda pergunto para minha mãe se eu fazia parte da tribo dos vuvuzeleiros enlouquecidos ou coisa do tipo, como parece existir hoje. Fica pra outra hora. Afinal, as cornetas grandes já ganharam bastante atenção da mídia brasileira.
A questão é que essa facilidade pós-moderna de intercambiar a cultura e peregrinar por tantas ideologias me assusta. Bebemos Coca-cola enquanto lemos um bom livro de Marx; logo depois, passamos no Mc Donald's e tomamos um sundae enquanto xingamos o capitalismo selvagem e o governo, para depois abrirmos uma revista Veja e balançarmos a cabeça num ritmo incontido, indicando uma concordância natural. Tudo lindo e ideologicamente incorreto, de acordo com o mais recente Código de Posturas Sociais Médio-Classista. Simples assim. Ah, não se assuste. Não vou ficar jogando por aí meu posicionamento ideológico. Essa crônica não se presta tanto para isso. A ideia inicial era falar de japoneses. Falemos, portanto.
Com o mau-humor típico das quintas-feiras me acomodei no ponto de ônibus. Comecei a observar ao meu redor, e lá estavam os japoneses. Um dos meus passatempos preferidos é observar as outras culturas: hábitos, comportamentos peculiares, tudo me encanta. Apesar de nunca ter saído do sudeste brasileiro, sei reconhecer um gringo à distância. Nesse caso foi mais fácil, e nem precisei de alguma habilidade específica. Os focos de minha atenção, além dos olhos puxados, falavam japonês e carregavam um grosso dicionário da língua portuguesa. Uma garota me chamou a atenção: ela carregava uma bolsa com o emblema da Hyundai. Comecei a pensar naquela questão do Marx, em capitalismo, exploração do trabalho e todas as derivações teóricas possíveis. Depois de alguns minutos de devaneio, voltei à realidade. Espantei-me quando percebi que a japonesa da Hyundai me olhava, sorrindo. Abandonei completamente a discussão teórica que tomava conta da minha mente e comecei a pensar no que aquilo significava. Será que sorrir, no Japão, significaria um “flerte”? O que ela estava querendo dizer com aquele olhar? Por fim, deixei minha presunção de lado e comecei a achar que me empolguei demais com minha argumentação interna. Vai ver eu estava falando sozinho e não pude ouvir direito, por conta do barulho das vuvuzelas. O ônibus chegou e eu fui embora, ainda sem entender nada da cultura oriental. Paciência...
É, o intercâmbio cultural me surpreende. Só que, da próxima, em vez de vuvuzelas, alguns travesseiros poderiam ter virado a sensação da Copa do Mundo. Eu não pensaria em pular da ponte, e a insônia dos brasileiros teria um novo e forte inimigo. Ah, e certamente eu conseguiria ouvir melhor os meus pensamentos. De tabela, eu decifraria os pensamentos uma oriental. Quem diz que Copa do Mundo é só felicidade ainda não conhece a frustração de não conseguir interpretar um sorriso.
sábado, 15 de maio de 2010
Oportunamente.
"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu".
(Caio Fernando Abreu)
Frase oportuna para a data. Coisas da vida. Oportunidades, momentos, decepções e, infelizmente, apenas lembranças... :}
Um beijo para a Anna. Li a frase no blog dela.
sábado, 1 de maio de 2010
Transporte público encoraja nova Geração-saúde
A educação brasileira envergonha. Não é novidade que o Brasil enfrenta desde sempre a negligência dos setores públicos nos assuntos referentes à educação, e nem mesmo dez editoriais retratariam fielmente a situação atual. O acesso à educação básica acaba se tornando raridade para a maior parte da população, e o ensino superior acaba sendo visto como uma utopia.
Juiz de Fora é uma exceção a tantas outros lugares, e conta com uma das instituições federais de ensino mais importantes do país: a UFJF. A educação chegou até aqui, mas a cidade ainda não consegue chegar, de fato, à educação. A realidade do transporte urbano é dramática, e os estudantes não veem nada além de portas fechadas quando tentam entrar nos ônibus superlotados. A reestruturação do ensino na UFJF abriu as portas a centenas de pessoas, mas na cidade as empresas de ônibus não andam no mesmo compasso. O que já era ruim ficou ainda mais assustador.
A Secretaria de Transporte e Trânsito (Settra) disponibilizará, a partir do dia 03, mais dez horários para a linha 525, que atende à Universidade. Se esta é ou não a solução para a superlotação dos ônibus, só saberemos daqui a alguns dias. Resta saber se as empresas responsáveis não estão apenas tentando mascarar suas falhas administrativas até então, jogando no lixo sua responsabilidade social e a credibilidade, já abaladas pelos escândalos envolvendo o ex-prefeito Alberto Bejani. Caso a situação persista, talvez seja preciso formar uma nova geração saúde: treinar estudantes-atletas, para que o transporte público seja, a partir daí, um item dispensável. Bom para saúde, ruim para a educação e péssimo para o capitalismo irresponsável.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Crise ideológica versus Jornalismo
Não é exagero dizer que vivemos num mundo em crise ideológica. Ao menos um mundo em que a ideologia está, em grande medida, sufocada pela massificação midiática e pela superficialidade das atitudes e ações. Priorizamos o banal e o passageiro, e nos esquecemos do nosso próprio passado de lutas e conquistas; nos esquecemos de parar e refletir sobre tantas meias verdades. Somos induzidos a largar os livros e conversar sobre tantos brothers país afora. Somos educados a deseducar.
Com tantas necessidades e posturas a serem modificadas mundo afora, é quase uma utopia esperarmos atitudes que levem em conta o bem comum. Em meio a tantos interesses torpes, o jornalista é um profissional que rema contra a maré: trabalha em uma empresa privada, buscando defender os interesses públicos. Na grande maioria das vezes isso não ocorre, seja por falta de interesse do comunicador ou pela falta de liberdade dentro das empresas. O jornalismo de hoje pode ser considerado como uma sombra daquele que buscava a mudança e a politização dos leitores. Jornalismo hoje é Indústria, com direito até mesmo à famosa divisão do trabalho. Apurar, transcrever, redigir, editar e diagramar são algumas das funções dos proletários da informação.
Vivemos numa época de censura velada. Por mais que os jornalistas se empenhem em produzir informação de qualidade e agir em consonância com a opinião pública, os interesses econômicos e individuais são os principais itens de uma linha editorial. Antigamente vivíamos numa época em que expor opiniões era atitude honrosa e patriótica. Era uma “transgressão” que valia a pena cometer, e o “proibido proibir” era um brado encorajador. Hoje é tudo uma questão de dar um “jeitinho jurídico”: uma ação aqui, uma censura acolá e tudo fica bem. Desta maneira, é quase impossível um profissional desta área não ser desacreditado de seus objetivos principais. Como no filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, o jornalista está produzindo notícias como um robô. Perdem os jornalistas, perde a sociedade, que é alimentada diariamente com notícias sem consistência.
Numa sociedade dita imagética, deveríamos ter vergonha de nos olharmos no espelho. O que refletimos não é nada além de uma mistura de futilidade e descrença, fruto do nosso descaso pela mudança. Para que os jornalistas não sejam totalmente incorporados a essa realidade e ajudem na mudança crítica da sociedade, muito ainda deve ser feito. As soluções vão muito além do bom senso, e exigem ética profissional, respeito próprio e, acima de tudo, ousadia. Jornalistas trabalham por meio das palavras, mas lutar apenas com letras e sem nenhuma atitude é uma batalha perdida pela ignorância.
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